9 de janeiro de 2011

Restou o silêncio

O gosto do beijo trocado antes de abrir a porta do carro e despedir-se ainda podia ser sentido suavemente, assim como a lembrança do sorriso jogado ao ar que iluminou a avenida naquela manhã. Aquele amanhecer tinha sido o último corpo a corpo desde então e ela ainda buscava as palavras que pudessem explicar-lhe o repentino, o abrupto, o inexplicável. Pesquisou na memória a história que se desenhara com tanta afobação e intensidade, com tanto desejo e necessidade. O princípio deu-se numa noite mais comum do que incomum, de tranquilidade e calmaria, que se transformou na insônia insólita e em contatos inéditos. O som do telefone à beira da cama não permitia o sono sereno e assim continuou no dia seguinte durante a noite que lhe trouxe o inesperado. Num ato impensado, ele decidiu por ela e diminuiu a distância da estrada que os distanciava. Mostrou seu desejo veemente, todo anseio, avidez, cobiça, sede, sofreguidão. Desbravou quilômetros, desfez-se das pontes e transformou o que parecia ilusão. Na realidade dela, na verdade que mesmo aquilo que parecia uma mentira não supera. Atônita, ela não podia crer naquela entrega, naquele improviso, naquele sorriso que, pela primeira vez, a paralisava. Diante do carro e de braços estendidos, ele trazia do doce do chocolate ao descanso do travesseiro. Mas que trapaceiro poderia ser tão impulsivo, precipitado, imprudente, se não houvesse tanta ambição. Meu Deus! Ela desconfiava e relutava em acreditar que aquilo não seria em vão. Mesmo descrente e em disputa com a incredulidade diante de tantas surpresas, diminuiu a tensão e descuidou-se de si. Relaxou. Jogou-se no colo que se fazia presente e sincero. Deixou-se levar por anelo e aspiração. Excedeu-se, ultrapassou limites, foi além. Não teve pudores, acreditou naquele zelo, apelo, dedicação. O dia próximo dava continuidade ao capítulo que não dava sinais do fim. Nem a chuva forte segurou o ímpeto de vê-la e a história retomou o carinho que ele dizia ter. Do cheiro da calabresa em cima da mesa ao sabor do corpo no macio da cama, ela experimentou os novos gostos daquela união. O sono veio, o cansaço acompanhou e a gripe parecia se fazer presente e trazia a mansidão. Massagem, caridade, compaixão. Ela transbordava desvelo e conferia-lhe atenção. Ele, por sua vez, enaltecia os cuidados e declarava nunca ter vivido algo assim. Adormeceram enlaçados em meio à calma e em processo de sublimação. No despertar, a suavidade do ar os fazia bailar ao som de tudo o que pulsava e não queriam guardar. Mais dias de contatos sem fim e promessas. Meu Deus! Quem seria tolo à beça para causar, de graça, desgosto e ingratidão? Ela desacreditava na própia intuição e se envolvia pelos fatos até então verídicos. Foi quando começou o retraimento, o desconexo, a solidão. A opção de afastar-se para resolver o passado foi a explicação. O pretérito que ele decretara falência e tudo o que não mais queria e até o impulsionava para ela reclamava seus direitos e isso talvez o fez esquecer o quanto já havia se comprometido. Tonto, medroso e fraco, ele permitiu que a covardia lhe tomasse e fez do sumiço a solução. Não teve a mesma coragem do início quando fez força e deu indícios de respeito, estima, apreço, importância e consideração. Até agora o que restou de todo encanto virou frustração e mágoas. Silêncio que ressoa ininterruptamente nos ouvidos como as primeiras palavras.

11 comentários:

  1. Como um furacão... veio inesperadamente e saiu com muita fúria sem deixar rastro...

    Um beijo de carinho.

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  2. ah.... queria me sentir livre de mim mesma, de todas as preliminares que criei pra mim mesma e escrever assim, livremente...
    bjoss

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  3. A mágoa dilacera a alma.

    Beijo imenso, Lu linda.

    Rebeca

    -

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  4. ...quão complexas são as
    mazelas do amor!!

    bj, querida!

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  5. Obrigado pelo comentário no meu blog.
    MUITO bom esse seu texto.

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  6. Minha querida

    Passando para deixar um carinho e agradecer as palavras de amizade...estou melhor e voltando.

    Beijinho
    Sonhadora

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  7. Furacões acontecem em nossas vidas como chuvas de verão. Colocar os pés pelas mãos no impacto com o "novo" pode ser natural, mas deve se haver carater para assumir escolhas...
    Nada como um dia após o outro. Nada como um chope bem gelado com a organização não alivie.

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  8. Essas mudanças quando não são em conjunto, deixam a gente com cara de tonto.

    JC

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  9. ótimas palavras, belas imagens. como sempre.
    bjão, menina

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  10. Frustração e mágoas...levam ao silêncio.
    Bjoo!!

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