17 de janeiro de 2010

Pronto, não contei

Eu sei. Eu sei. Não contei. Mas não foi por mal. Não resisti à suavidade do seu sorriso assim que amanheci. Estive a seu lado a cada pegada na areia, observando como contemplava meu brilho até meu entardecer. Enquanto eu sumia no horizonte, sentia o quanto seria difícil deixá-lo aí. Sozinho. Não contei. Eu sei. Realmente fui o sol para lhe aquecer e clarear a sua parte que existia em mim. Não parei por aí. Diante daquela linha infinita e enquanto me despedia de ser sol, me senti molhar seu corpo e envolvê-lo no vai-e-vem das ondas que habitavam em mim. Ao contato do que agora me parecia frio, vi que estremeceu e relutou em se entregar. Arrepiou ao constatar que não seria possível mensurar o que batia aí dentro. O que nos unia era incomensurável, inadiável, inabalável. Não contei. Eu sei. Fui o mar e lhe amparei naquele momento tão crucial. E daí continuei. Com tudo que mergulhava em mim, vi que gotas evaporavam rapidamente e fui às alturas. Do alto, observei que não encontrava seu rumo a léguas de mim. De saudade não suportei e me debrucei e tempestade virei.Todo aquele torrencial de emoções não apagava o fogo que insistia em virar labaredas aqui. Não contei. Eu sei. Fui a chuva que lhe inundou de esperanças. E assim podia seguir-lhe dia após dia, reconhecendo em mim a porção que lhe faltava. Até o momento em que percebi que não havia troca, que transformei em mim o que pude para alcançar o que não acreditava ter, que me esforcei para ser o que lhe agradava. Foi aí que virei ar, fiquei livre e me livrei de você.

3 comentários:

  1. Oi Lu!
    Saudades daqui. Andei fora por um tempo.
    Quanto ao texto, como sempre sensibilidade latente e talento no grau máximo.
    Lindo demais.
    Um beijo!

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  2. Se não existe a troca, todo o encanto se desfaz, lindo o texto!

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  3. muito bom o texto, consciente, de quem sabe o que quer...
    Maurizio

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