20 de setembro de 2009

No comando do divã

Não sabia que trazia a insustentável clareza dos divãs dentro de mim. Pois é. Tudo começou no dia em que Ana estava angustiada. De vestido azul de bolinhas amarrotado, parecia não ter dormido bem naquela noite. A maquiagem não estava impecável como de costume e a palidez contrastava com as olheiras profundas que me despertavam sentimento de piedade. Passava as mãos pelos cabelos todo o tempo, com unhas vermelhas reluzentes, enquanto folheava minha ficha. Os olhos verdes estavam marejados e irreconhecíveis e o nariz fungava baixinho. Aquele papel logo ali guardava minha dores, meus amores, meus horrores, meus sabores. Mas, naquele momento, era o que desnorteava a vida dela que estava em foco. Levantou e pude ouvir o toc-toc nervoso do salto agulha. Veio, então, a pergunta: "Será que hoje posso falar de mim? Estou precisando..." Fiquei sem jeito de dizer não àquela muralha que parecia impenetrável e que agora quase desmoronava diante de mim. Sentei e esperei as primeiras palavras. "Meu casamento acabou", disse ela. "Sinto-me presa a quem é muito muito mais jovem e nem sabe o que sinto. É que ocupa minha mente todo tempo, incontinente, inconsequente, e sinto arrepios só de pensar. É um constante aperto aqui dentro que não sinto há anos. Não sei o que fazer"...Respirei fundo para pensar melhor. Iria me arriscar a assumir um papel que não era meu. Não me fiz de rogada. Fui em frente. Expliquei que o primeiro ponto é entender o que sente e, que na minha opinião, poderia ser tesão. É como um ardor que pulsa, um desejo que explode e faz a pele arrepiar. É a vontade de se dar, de despir-se, de prender-se ao que ainda não há. Talvez seja a transferência do que se tornou falido e vem do passado para um futuro incerto, despreparado e ilusório. Ele pode ser o apego à juventude e à novidade, a carência quase inesgotável paralela à crise existencial, a diversão simbólica misturada ao medo de ficar só. Não há como ser racional nos desvios do ego, mas é nítida a pressa do sentir, do vibrar, de buscar o elo contra solidão. Por outro lado, pode ser um investimento, mesmo sem certeza, de desejos extremos, de dias e noites de dengos, de prazeres e bons momentos. A decisão só cabe a quem sente ou pensa sentir. Não pode vir a influência de mim. Mas concordo que, na vida, nada melhor do que arriscar. Pode ser feliz ou pode ter que encarar a derrota e desistir do caminho a seguir.

Um comentário:

  1. Sábias palavras.

    Essa vivência é a prova de que somos todos iguais, falíveis e sujeitos a toda sorte desse mundo. A vida sempre segue, mesmo praqueles que querem ficar estáticos.

    Grande beijo,
    Zin

    ResponderExcluir