24 de maio de 2009

Ira

Ela é ríspida, cínica, quase cíclica. Vem e vai. Vai e vem. Sem anúncio. Sem discurso ensaiado. Sem modelo armado. Instala-se num emaranhado louco de descontrole, tornando o sentido quase insensível. Vive no limiar entre o destempero e a alucinação. Apega-se. Entrega-se. Desnuda-se. Mostra-se sem pudores. É um horror que ofende a decência, a modéstia, a prudência.  É a fraqueza do furor. É a certeza do desamor. Geralmente perde-se no infinito de si mesma e espalha-se como energia por todos os lados. Sem eira nem beira. Não tem origem e não conhece o princípio que lhe comanda. É bamba. É um engano. Não se acha. Não samba. Não cai em si mesma e não se reconhece. Muda as feições suaves que se apresentavam. Destroça emoções que insistiam em persistir. Só é possível encontrá-la só. Solitária. Acuada. Desavergonhada. Descarada. Má. É sem piedade. Não suporta a verdade de deixar-se aliviar. Quer ser febril. Tem um apelo infantil. É indócil. Surge sem capacidade, na mediocridade de ser dura. Apenas por ser. Simplesmente por ferir. Recobre-se de agressividade e incita a cólera que lhe vai no íntimo. Não se detém. Não vira refém do controle. Afeta o alvo mirado, golpeia o ser desejado e não tem hora para parar. Certamente vai se perder e esquecer de ser o que foi um dia. É o oposto da alegria que o olhar atrai. É o inverso da paz que um beijo traz. É ser infeliz e quase não respirar mais... 

12 comentários:

  1. Lu,

    Em cada texto seu, fico mais encantada com esse seu jeito escritora de ser.

    Perfeita na hora que escreve... suas palavras brotam.

    Adoro!

    Beijo grande, menina linda

    ResponderExcluir
  2. minuciosamente vc explicou direitinho o significado, desse terrivel sentimento. amei mesmo ler tudo isso.

    bjosss...

    ResponderExcluir
  3. Olá Lu!!
    Bela descrição de coisas que nós todos sentimos, mesmo as vezes não gostando dos sentimentos que temos...mas, afinal somos humanos!
    Beijo!!
    P.S. Vc gosta mesmo de girassóis!! rsrsrs!

    ResponderExcluir
  4. Que furacão hein...rs Malandrona!

    ResponderExcluir
  5. Oi Lú,

    A ira no meu ponto de vista é uma descarga de algo preso na garganta, um maremoto interno de sensações silenciadas, que quando transborda não há como contê-la, ela se esvai....e é bom que se vá..isso limpa purifica....


    Adooooro o modo como descreve pessoas e sentimentos, vc tem um modo bem peculiar de fazer isso e eu admiro esse jeito seu!!!

    bjinhos

    ResponderExcluir
  6. Depois do "Ciúme", a "Ira"!
    "Ela" anda impossível...!
    Já pensou em reunir todos esses textos num livro?
    Vc escreve bem demais!
    Um beijão!

    ResponderExcluir
  7. Concordo com o Francisco no comentario dele.

    Se escrever um livro eu quero!

    Vc está cada dia melhor nos seus textos.


    Bjos!

    ResponderExcluir
  8. muito bom o texto. Ótimo voltar ao teu blog.
    Tenha um belo dia.
    Maurizio

    ResponderExcluir
  9. "A minha bala, ela tem direção, ela fere rente..."
    Eita, eita, sentimento entalado na garganta!
    Luca,
    muito bom ler suas palavras!! Vc consegue traduzir o que está aqui dentro.
    Bjs mil,
    Lu ;)

    ResponderExcluir
  10. LU, quem cultiva a ira está semeando dentro de sí imensos buracos na camada de ozônio da sua saúde.

    Ela invade suas visceras e as transformam em um balio de gatos.E destes gatos bem chatos, que em cima do telhado e no cio, não deixa ninguém dormir.

    ResponderExcluir
  11. Eu quis digitar BALAIO DE GATOS, mas minha ira era tanta que saiu aquilo.

    Desculpe, seu blog não merece estas escorregadelas vernaculares.

    Um abração.

    ResponderExcluir