18 de abril de 2009

Remodelagem

Lívia não sabe exatamente o que se estabelece dentro de si nessa nova busca pelo desconhecido e pelo doce levitar do corpo que não mais encosta apenas inerte ao seu lado. Talvez seja o que lhe faz sorver, reter, aspirar. E não o que lhe empurra de cima para baixo num vácuo cortante e afunda de encontro à soberba, em leves pretensões e arrogâncias que não lhe são comuns. De menina levada e pura, ela alterou os sentidos e, num só gemido, dispersou-se no ar. Debandou de si. Aportou-se ali. Voou para cá. De volta a si agora, tenta retomar a resistência e deseja recriar-se. Por um tempo, perdeu-se num labirinto de total presunção e achou que tinha a unidade de tudo o que é belo e bom. Viu-se cercada de apelos da consciência, que não mais lhe segue, e cedeu. Foi diante daqueles olhos de fera que sobrou arrebatada no chão, entregue ao destino que se desenhava sem suas mãos. Virou só, solitária, repelida por si mesma. Não se suportou mais e, num ímpeto de volúpia, desviou-se dali. Recordou a infância proveitosa e delicada e não reconheceu a sua face. Os anos findos já não lhe traziam beleza à memória. Apenas menosprezo e embaraço. Encontrou-se como o reflexo do que não almejava e arremessou-se ao mar. Nadou profundo no fundo da próprias aspirações e descobriu-se a ponto de renovar, virar a calma, trasformar a alma. Até emergir do nada. Foi a partir daí que optou por novo rumo, nova estrada. Enxergou com nitidez toda imperfeição e esforçou-se a mudá-la. O tempo não foi curto, os acertos não foram fáceis, mas ela venceu. Retomou a serenidade, a quietude, o ânimo. Olhou para o lado e voltou a observar o que lhe fazia sobrevoar ao redor de si a ponto de tirar-lhe os pés do chão. Deparou-se com a conjunção, com a certeza do choque, com o ritmo forte da atração. E compreendeu-se em extrema remodelação. Sentia-se feliz. Recostou naquele peito forte, cansada de tantas lembranças, e adormeceu após toda reforma, sensatez e despertar...

2 comentários:

  1. Depois de um dia estafante não há nada mais reconfortante que deitar-se no peito de alguém. Sinceramente. Acho que, por isso, não sei estar só.

    Beijo grande,
    Zin

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  2. Você deve ser uma pessoa intensa e sensível por tudo o que escreve.

    Gostei muito do seu blog.

    Voltarei outras vezes.

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