25 de abril de 2009

Confusa

Ela não soube explicar o isolamento. Emudeceu. Calou-se. Espaireceu diante da dor aguda que tiritava inconstante e viu os segundos rodopiarem como se não mais existisse. No peito, a sensação persistia agora suave como se no âmago tudo passasse a ser controlado por um ritmo manso. Cadenciado. Dominado. Olhou-se profundamente e exaltou a fúria que ainda guardava. Repensou nele. Mais uma vez. Trouxe mentalmente aquele corpo junto ao seu e perdeu-se. Extraviou-se. Não deteve a razão. Recordou do rombo que, por ali, esvaia-se tudo o que de belo e bom alcançou com a vitória. Incoerência alheia. Ingratidão. Ela sentia-se estilhaçada, ferida, amargurada. Reservava-lhe a integridade da escolha e o que lhe restou? A deslealdade, o dolo, o erro. Entregou-se confusa ao nada fazer e ponderou a reflexão que lhe cabia na alma. Sobraria-lhe a desculpa. Por bondade. Por piedade. Por gratidão. Ela, no entanto, não queria ser grata àquele que lhe confiscou o dia, a claridade, a luz. Ou ao que lhe trouxe a escuridão, o ópio oponente. De repente. Um estouro. Em seguida, a mansidão lhe tomou de assalto e fez ruir a muralha que se estabelecia intacta. Afogou-se em lágrimas que brotavam sem parar e a rolar pela face macia. Viu-se menina a rodar na roda-gigante que crescia diante de si. Lembrou-se do que foi, do que é e do que pode vir a ser. Descobriu que os ciclos se misturavam com a vida de tempos em tempos. E que a falha viria a lhe bater à porta no seu momento de inversão. Poderia estar abaixo dele, submersa, sob análise de quem lhe apunhalava agora. Certamente não esqueceria, nesta sua íntima hora, a possibilidade do perdão. Observou a calmaria em torno de si, recompôs os sentidos e resolveu apagar o que já passou.

10 comentários:

  1. Lu,

    Já falei que você escreve muito bem? Seus textos são maravilhosos...

    Apagar o que passou, acho meio difícil... mas fazer outra história em cima, nem que seja em forma de rascunho, é válido.

    Beijo grande.

    Rebeca

    -

    ResponderExcluir
  2. Eu super-APROVO o fato da gente olhar pro que tem hoje, sinceramente. É com o hoje que a gente tem que se concentrar mesmo...

    ResponderExcluir
  3. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

    ResponderExcluir
  4. Cuidar dos momentos, do agora é fato.

    Bjos de luz moça!

    ResponderExcluir
  5. o coração lutando com a razão e vencendo sempre.
    bjosss...

    ResponderExcluir
  6. E a gente vai juntando tudo, de ponta à ponta, algumas lembranças a gente deixa lá pra trás e continuamos seguindo.. recomeçando... concentrando-se no presente. a vida é assim.
    Vamos olhar pro hoje que mais importa! Tanto pra mim, quando pra você.

    Meu beijo carinhoso, querida!

    Se cuida. E - mais uma vez! - texto lindo, perfeito!

    ResponderExcluir
  7. Ah, essa terceira pessoa do singular!
    "Ela" anda impossível!
    Um beijão!!!

    ResponderExcluir
  8. Outras pessoas...sei!!
    Mais um beijão!

    ResponderExcluir
  9. Seus textos têm a consistencia e o enredo dutrinario do espiritismo.

    Na realidade o que você narrou foi uma regressão à vidas passadas.

    Se não for espírita, a própria psicanálise explica estes pulsos do inconsciente coletivo, principalmente, Jung.

    Se não gostar de psicanalise, o que você narrou é uma teoria central do Cristianismo, pois a semete só viceja se cair em solo fértil.

    Enfim,o bom nos seus textos é que você é democrática, pois vai propiciando chances do pessoal entrar na condução que quiser e sentar-se no banco que mais lhe convier.

    Você, na realidade busca a explicação da linguagen de Deus.

    Eu li um livro,mes passado de Francis S.Collins, Diretor do projeto Genoma da ONU e foi Best-seller do The New York Times, cujo título é exatamnebte este:A Lingagem de Deus.

    É um dos mais famosos cientistas da atualidade que não quis mais conviver sozinho com a certeza de que Deus existe e aprsenta as evidências.

    Um outro livro,pesadíssimo, denso, difícil, é do Richard David Praecht: Quem sou eu? E, se sou, quantos sou?

    Um livro best-seller na europa.

    Você. no seu perfil, diz que mora no Rio de Janeiro, não sei se município, mas caso você queira poderia emprestar-lhes estes dois fantásticos livros.

    Moro em Jacarepaguà, mas estou sempre na Barra da Tijuca.

    Um grande abraço.

    ResponderExcluir
  10. Lu, esqueci de lembra-lhe que no meu blog, tem meu e-mail.

    Mos ,eus blogs, me contemto em ser limalha(rsrs).

    ResponderExcluir