20 de abril de 2009

Reconduzir-se

É impressionante a força do desejo. Impulsiona, Sobrevive. Reflete. Não se entrega. Parece passível de controle. Mas não o é. Por vezes, perde o rumo. Diante da passividade que se faz ausente, ele não se dá por vencido. Na sua sadia teimosia, tentou entretê-la uma, duas, três, quase dez vezes...e nada. Nem assim desiste. Sufoca a dúvida que vai e persiste. Segue firme. Insistente. Quase indiferente à dor que lhe toca por dentro. Ela tenta sorrir, esquiva-se, brinca e desvencilha-se. Não se tocam, não mais se emocionam como antes. Enquanto ela é livre e precisa sentir o vento tocando seu rosto e contornando seu corpo, ele se prende ao que foi, deseja recobrar os sentidos que não mais existem. Quer retê-la, afagar seu colo, atrair os polos que os separam. Ela quer desobedecer as regras, rasgar contratos, revirar os lados. Angustia-se com a ânsia de acumular, de dominar, de impedir o desenrolar natural do que há. Tudo que o controla. Ele quase desespera e escolhe embaraçar o improvável. Enquanto ela é expressão curta e simples, sem rebuscamentos, ele se torna até ilegível. Pontua. Exclama. Interroga. Exagera. Tanto que a loucura pareceu comandar-lhe as aspirações por momentos turvos. Certa vez, atirou-se à escuridão e quase cegou-se permanentemente talhando em sangue os pulsos que guardam o vermelho rubro e picante das emoções. Descontrole. Explosão. Incapacidade. Ela se espantou e, amendrontada, carregou no peito a culpa infundada, sumindo, mesmo assim, no mundo por período incerto. Ele entregou-se à fraqueza. Chorou, sorveu, submergiu. Quase sucumbiu. No entanto, com o tormento, aprendeu que não adianta desertar da vida ou teimar em abreviar o fim para fechar a ferida. De nada adiantará. Precisa buscar a razão, reconstruir seu íntimo, acariciar seu ego, reencontrar-se consigo, reconduzir seu amor-próprio ao caminho que foi seu um dia. Só a partir daí poderia tentar reconquistá-la...

6 comentários:

  1. Lu, você escreve tão lindo que cada vez que venho no seu cantinho fico submersa. Sem saber o que dizer. Sem saber como expressar minhas palavras diante do seu belíssimo texto. Uma crônica ótima. E digo mais: quando acaba a atração da carne, é porque passou, viu? Não tem como. Fica na amizade mesmo, haha.

    Beijo, flor!
    Cuide-se!

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  2. nossos sentimentos são cheios de fases. belo texto.

    bjosss...

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  3. Ah! Essa garota ainda dá um nó na minha cabeça!
    Como pode escrever tão bem, e ainda me deixar pensativo horas depois de ler o texto?
    Um beijão!

    P.S.: Na "Verificação de Palavras", estava escrito "empatia".

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  4. Ó chamateia que fala da saudade
    Ó canção que pões um brilho nos olhos
    Ó mulher que tens a forma da viola
    Ó que espalhas paixões aos molhos

    E o cantar da meia-noite
    A todos encanta e seduz
    Cantar até que morra a voz
    Cantar até que haja luz


    Vem tocar uma Viola de dois corações



    Mágico beijo

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  5. Lu, vim pelo link achando que ia encontrar um blog sobre futebol, e para minha grata surpresa, encontrei textos belíssimos!
    Parabéns amiga, você escreve maravilhosamente bem!
    Virei fã!
    Bjssssss

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  6. Luca,

    "...Precisa buscar a razão, reconstruir seu íntimo, acariciar seu ego, reencontrar-se consigo..."

    Isso é de uma profundidade de dar gosto de ler, sentir, saborear, comentar, falar, divulgar...

    Sou sua fã!!
    Bjs mil,
    Lu

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