5 de abril de 2009

Desde a infância

Desde pequena, ela vive entre acordes, sons, melodias. Se não era a sua avó cantarolando músicas de tantos tipos e mexendo em seu cabelo naquele balanço que anunciava o momento íntimo das duas, era o seu pai tocando violão e assobiando afinadíssimo para esconder a voz que não queria mostrar. Se não era a sua flautinha bege e depois marrom nos dias de música na escola, era o inseparável violão que tocava e as músicas que cantava nas aulas particulares da professora que cometia inúmeros erros de português, mas que adorava seu tom de voz. Parecia talvez ter um pouquinho de algum talento. Afinal, ganhara alguns fãs, ainda que parciais, ao longo desse tempo. Daqueles que pediam canções, insistiam em elogios, sabiam cantar suas músicas, composições que não sabe até hoje como surgiram exatamente. Simplesmente brotaram de sua mente com melodia e letra, prontas e explícitas em seu ser. Três ou quatro, talvez. Isso sem falar em algumas mais que não tiveram fim e se perderam no tempo. Tinha o dom de acompanhar o som de inúmeras melodias apenas com o ouvia e descrevia cada nota ao fechar os olhos. Foi assim durante uma parte da infância, adolescência e juventude. Depois ela parou. A vida acelerou de uma forma que atropelou a sensibilidade musical que lhe dominava. Não mais tentou. Acreditou que não teria mais como recuperar os anos perdidos. Nem mais quase tocou. Emudeceu. Esta semana, teve uma vontade quase incontrolável de retomar o fio de onde estacionou e de se jogar de volta à música. Olhou o violão empoeirado e encostado ao lado do armário. Ele a encarou como se reclamasse o abandono. Ela baixou o olhar. Continuava cantando em casa, no chuveiro, pela sala, com o som ecoando pelo banheiro. Mas a ousadia ainda não lhe invadiu a alma para recordar a emoção que sentia em cada sinfonia ou o alívio de ser livre ao soltar a voz. Na verdade, ela pensa, algumas horas, que o tempo já foi. Noutras, acredita que pode correr atrás. Ainda está sem coragem, mas timidamente se prepara para a viagem que lhe levará, a qualquer momento, a recomeçar....

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