24 de março de 2009

Um dia me aproximei daquela bola que era dona dos meus domingos. Dolorida, ela veio contar como se sentiu nos primeiros 90 minutos de vida. Ao primeiro pontapé, revelou que se sentia como se as estrelas brilhassem de dia. Saiu do chão num voo diagonal. No ar, um pouco tonta, pensou que ia desfalecer. Manteve os olhos abertos e se viu caindo na grama. Chuteiras com travas a esperavam. Pretas, firmes, uma a escorou naquele tapete verde. A maciez do gramado contrastava com a dureza daqueles pés. Parou, tentando organizar as ideias. E, logo em seguida, rolou próxima à pequena área. Outros pés a esperavam ansiosos por mais um chute. Viu várias pernas musculosas correndo na tentativa de roubá-la. Mas nenhum conseguiu. Sentiu-se cheia, redonda, repleta, enquanto deslizava bem conduzida. Chegou, então, bem perto de um par de chuteiras prateadas. Olhou para cima e não acreditou no Fenômeno que despontava diante de seus olhos. Com prazer, entregou-se ao ídolo e aguardou seu toque magistral. Sentiu mais um tapa. Só teve tempo de ver o goleiro caído para o outro lado, enquanto atingia aquela rede acolhedora. Caiu exausta e orgulhosa no fundo, sentindo em todo o seu corpo a dor. Esqueceu tudo por momentos ao ouvir o grito ensurdecedor de gol.  

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