31 de março de 2009

Somos tão pequenos diante da imensidão incontável do infinito..nem sempre é possível ter essa consciência. Por vezes, sentimos que o mundo gira ao nosso redor e que a providência é direcionada por nossas aspirações. Cuidado com o que almejas. Os desejos podem guiar nossos pés. Dependendo deles, disse-lhe certa vez um velho sábio, o caminho pode ser estreito, angustiante ou prazeiroso...o melhor era refletir. Bastante. O dia estava daqueles...Do banquinho de cimento à beira da praia, minha amiga Ana observava atentamente o ir-e-vir das ondas planas que se moviam em sequência. Naquele azul nítido, a luminosidade refletia a cor vibrante e, ao mesmo tempo, calma e direcionava os pensamentos para longe. Os reflexos espalhados por todos os lados despiam-na das dúvidas que insitiam em atormentá-la. Um transe. Um vácuo. Sem ruído. Estava só com aquela inesgotável sensação de que precisava acelerar a vida, ultrapassar limites, usar sua ânsia e urgência para chegar onde queria. Passou as mãos pelos cabelos para lembrar da suavidade necessária e tentou conter a impaciência. Não conseguia. Queria mais do que tudo aquela perfeição imaginada que parecia cegá-la a cada vez que se esbarravam pelos corredores, mesmo que poucas vezes. Era seu ideal. Seu desejo colossal e arrebatador. No entanto, não muito sabia de sua vida, de sua conduta. Nem mesmo sabia de onde vinha e para onde ia. Isso tampouco parecia lhe importar. Assim que se conheceram, alertei-a algumas vezes sobre a preocupação em saber quem era. O que fazia. O que queria. Ao que seguia. Parece simples e pouco, mas esse é o meio de avaliar o outro. Por sua crenças, suas escolhas, seu rumo. De nada adiantou. Ana preferiu o novo, o oculto, o abstrato. Na primeira semana, já lhe tinha confiança e faltava-lhe entregar as chaves daquele apartamento recém-mobilhado. Não demorou. Num próximo dia atarefado e cansativo, confiou a ele exatamente aquele chaveiro pesado que trazia a frase Cuidado com seus desejos. Despediram-se, como se fosse a última vez, e ela, sem sentir o cheio do adeus, no momento, dirigiu-se feliz ao trabalho. Sentia-se plena, conquistadora, dona de suas vontades. Ao fim do dia, voltou para casa e queria fazer uma surpresa. Pediu pizza antecipadamente, comprou um vinho caro e chegou à porta. Tocou uma, duas, três vezes a campanhia e nada. Tornou a fazer isso mais algumas vezes. Arriscou uma ligação para ele. Desligado. Ligou para sua própria casa e ouvia o telefone gritar. Preocupou-se. Ao conversar com o porteiro, começou a cair em si. Caiu realmente numa cilada.

- Olha, dona Ana. O que eu vi foi o moço descer com algumas caixas. Grandes e pequenas. Várias delas. Eu ainda perguntei o que era, se eu poderia ajudar e ele disse que eram algumas coisas que vocês resolveram doar e que eu não precisava me preocupar... 

Estática, sem movimentos, sem fôlego, ela se entregou ao sofá da portaria e não queria acreditar no que sua consciência tentava lhe explicar: "Sim. Você foi uma vítima de golpe!"

A polícia chegou, o chaveiro também, mas nunca mais ela viu aquela imperfeição indesejada.

5 comentários:

  1. É... ela não fez curso com você! Se fizesse, nao teria dado a chave e ainda fazia ele pagar o resto da mobilia né Malandrona?rs

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  2. uma amante de girassóis, vem conhecer seu lindo blog.

    bjosss...

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  3. Olha Lu, existem pessoas que fazem de tudo para se sentirem amadas. Nesse caso, ela literalmente deu casa, comida e roupa lavada para alguém que nunca comeu aquele kg de sal tão bem sabido por todos nós. Em roubadas todos já entramos. Ela sabia, no fundo, no fundo, que esse sujeito não era pra ela. Pagou com a sorte e a sorte não virou pro lado dela.

    Querida, adoro seus comentários.

    =]

    Maravilhosa quarta.

    Rebeca

    -

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  4. sei bem como é essa "inesgotável sensação de que precisava acelerar a vida, ultrapassar limites, usar sua ânsia e urgência para chegar onde queria".
    adoro chegar aqui, nao ter idéia do que vou encontrar e sair sorrindo.

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  5. Lu,

    O nosso amor só se encontra na esquina pra fazer aquele ponto de amor safado.

    Eu amo demais e não sei mais viver sem sentir o que Jota Cê diz pra mim.

    Beijo, menina linda.

    =]

    Rebeca

    -

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