Ele foi direto para casa dela do trabalho. Ela queria vê-lo. Chegou reclamando do cansaço, de estar cheio da voz gritante do chefe ainda na memória, da dorzinha que rondava sua cabeça. Para revidar, ela lembrou que também teve um dia daqueles. Telefone que não parava de tocar e gente chata a pedir coisas impossíveis. Ainda na porta, ele passou por ela e foi direto para a sala. Ligou a tv e se jogou no sofá. Enquanto ele tirava os sapatos, ela pensava rapidamente como surpreendê-lo e insinuar que, naquela noite, queria ficar deitada, coladinha, bem mulherzinha querendo se dar. Nada na mente. Nada à frente. Apenas ela que atrapalhava a visão dele que se fixava no jogo de baisebol na tela. Pediu licença com voz quase impaciente. Perguntou sobre a cerveja gelada e se ela podia fazer a massagem que sabia tão bem. Para revidar, ela disse que ficaria ocupada na cozinha por algum tempo para fazer algo. Ele sugeriu que pedissem pizza. Ela não quis. Queria, na verdade, ficar ali deitada. Com ele. Mas não daria o braço a torcer. Não para ele que, provavelmente, não estava ali por ela. Provavelmente não queria estar ali. Não estaria ali com ela. Não sabia o porquê. Era essa ideia que a atormentava. Seria verdade? Talvez não. Mas tinha essa certeza dentro dela. Apenas sua. Não entendia porque ele insistia nela. Até se davam bem. Na intimidade, na cama, na varanda. Mas ela queria mais. Mais zelo, mais carinho, mais atenção. Já não era assim. Não era tola e entendia que algo acontecera. A angústia foi se espalhando e ditando o ritmo descompassado da respiração. Melhor, então, mandá-lo embora. Pedir que saia. Implorar que se vá. Ensaiou umas desculpas, pensou no discurso. Ela não precisava dele. Ela viveria sem ele. Ela não seria mais dele desta vez. Mesmo querendo. Respirou fundo e repensou tudo. Resolveu dormir um sono profundo e deixar as decisões para amanhã. Como sempre fez.
7 de novembro de 2009
24 de outubro de 2009
Ela está à beira do que chama de libertação de si mesma. Corre. Voa. Quase flutua. Por anos viveu trancada na ética supervalorizada do que via na infância. E, sem saber que o mundo evoluiu e sobrou, ficou estatelada na mesma posição. Nenhum movimento vibrava, nenhuma postura cintilava ou chamava atenção do que ainda estava por vir. Não foi. Não viveu. Não achou a si mesma. Quase sucumbiu. Quase morreu. Na estática de quem não enxergava um palmo à frente, foi menina rendeira que usava saia rodada e de si não saltava. Na eminência do retardo do sol que nascia, foi criança iletrada que não sabia o que era e nem o sentimento resgatava. Sentia só. Sussurrava de dó. Carregou em silêncio a idosa que dominava seu ser. Deixou penetrar a velhice que insistia em adormecer alheia. Rejeitou o óbvio. Afastou o lógico. Não quis mais se conter. Virou o que era e, na esfera que se encontrava, permitiu-se ser a liberdade que se pode ter...
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Sinto aqui
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22:59
14 de outubro de 2009
Ela tem medo. Medo de não ser mais. Medo de ser demais. Medo de escapar e não chegar ao fim. Medo de encantar e de desistir. De adotar o extremo, de concluir o intento e de optar pelo sonoro sim. Medo de carregar a angústia, de estancar a busca e desiludir. De negligenciar o não, esculpir o perdão e descortinar a agonia. Medo de repreender e de se perder na volúpia. Medo do deleite, da delícia, da astúcia que traz nos olhos. Medo de preferir o raso, de rejeitar o acaso e se deparar com o inaceitável. Medo de esquecer e de não ter mais por onde ir. Os caminhos se estreitam, a busca incansável avança e ela sufoca e não se lança. É mais seletiva. É mais restritiva. É mais de si refém. Não cai, nem se esgota. Não se consagra, nem se sanciona. Não sabe se vai não sabe se vem. O medo que carrega no íntimo deforma o ego e traz o desassossego. Faz evaporar a autoestima, imergir em lágrimas, destoar rima. E quem vai condenar tanto receio? Só quem não deixar aflorar a bondade, transpirar a caridade e não carregar a compaixão no peito....
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Lugar Comum
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19:58
7 de outubro de 2009
O novo já não era tão inédito. Nem simples. Nem pacato. Nem refletia o meu autoretrato. Pelo contrário. Tudo era bem diferente. De mim, de si, até de vós. A não ser o que se podia ouvir por todos os lados. Minha respiração sintonizava com aquele som, com aquela melodia, com aquela música que se espalhavam no ar. A cada esquina, era mais um azul que brilhava e se misturava ao verde reluzente. Visão, claridade, nitidez. Era possível perceber na textura da intenção a suavidade sutil de quem queria se aproximar. Foi, então, que, tomado de coragem, vi que chegava de mansinho. Angustiado. Despreparado. Sufocado. Exalava a sugestão de quem estava perdendo o rumo e cheio de interrogações. E lá veio o que faltava: "Eu e ela somos diferentes em tudo. Em cor, cultura, idioma, idade, gostos, rostos, gozos. Tudo. O que é possível fazer?". Indagou, algo esperançoso e ansioso. Como se esperasse a resposta como a única solução que o impulsionaria à sua verdade. Sem todos esses medos ou com todos os receios. Mas eis algo que não posso dizer se sei. Dizem que opostos se atraem. Outros dizem que não. Até ressaltam que as semelhanças proporcionam mais possibilidades de encontros. Definição do que a vida realmente é? Imposição do que se pode viver? Suposição de qual direção tomar? É melhor nem tomar partido e deixar que o sentido se encarregue de escolher por onde vai andar. Até porque seria difícil apontar o motivo que os uniu. Isso, na verdade, pode nem ser o que mais importa. Talvez a saída seja deixar-se levar pelo dia-a-dia, com paciência sadia, sem tentar adiantar o que está por vir. É ter paz no esforço. É ter calma na escolha. É saber onde quer chegar. É viver sem ter planos. É entender e aceitar a estranha vontade de se dar...
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Confissões Alheias
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22:06
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